Friday, July 03, 2009

Trilha sonora da minha vida


Capitulo 4
Omaha - 1993
Segunda faixa do álbum August and Everything After
Counting Crows


Faz tanto tempo... E parece que foi ontem.
Em 1994 passei a morar sozinho. Eu tinha 22 anos. Consegui alugar um apartamento em plena Praça Vilaboim, a metros da FAAP, onde estudava. Era mais ou menos um sonho se realizando.

Era um quarto e sala de bom tamanho, praticamente sem vista. Os armários da cozinha precisavam ser escorados, senão caíam. Minha grana era tão curta, que não consegui comprar a tinta necessária para cobrir as paredes sujas. Resolvi fazer um "efeito" com uma esponja, a sala com um tom marrom, e o quarto, seguindo o padrão azul. O resultador ficou.... sui generis. Acho que se eu vivesse olhando aquelas paredes hoje em dia, já teria desenvolvido algum tipo de epilepsia. Mas funcionava. Escondia a sujeira.

Eu chegava do trabalho pelo metrô Marechal Deodoro, subia uma interminável ladeira chamada Albuquerque Lins, e dava para esperar em casa vendo TV antes de ir a pé pra faculdade. Quando (como o Vinícius bem lembrou no post anterior) eu resolvia estudar no boteco, eu atravessava cambaleando a praça, direto para a cama, às vezes com a roupa do corpo. Era sensacional.

Nos fins de semana, estranhamente, a rotina era mais branda. Gabriela vinha me visitar, e tínhamos nossa rotina de casalzinho jovem, subitamente libertados da necessidade de fuga que tínhamos quando namorávamos nas casas de nossos pais. Ali era minha casa, meu castelo.

Não faltava nada, mas o apê não se parecia com nada, também. Cada um dos (poucos) móveis que eu tinha, veio dos restos da mobília velha das casas de parentes. E cada um de uma época. Compramos uma manta para cobrir o sofá, que segundo minhas memórias ficou muito bonito. A função verdadeira era para cobrir o grande rasgo no assento.

De novo mesmo, eu tinha a geladeira e o microondas (que me seguem até hoje!).

Mas como era bom.

Eu e a Gabi fazíamos compras nos fins de semana. Voltávamos do mercado cada um com dez sacolas nas mãos, quase todas rompendo com o peso, e andávamos bem uns 6 quarteirões, parando de quando em quando para fazer voltar a circulação nas mãos.

A falta de carro nos deixou vários finais de semana no apartamento.Não ligávamos. Tinha uma locadora bem na esquina, enchíamos a casa de filme, e assistíamos juntos, deitados, divindindo impossívelmente um sofá de 2 lugares, numa televisão velha que ficou completamente verde na mudança.

No domingo, andávamos de bicicleta no bairro de Higienópolis. Voltávamos cansados, bebíamos cerveja e enchíamos a cara de Tequila com limão, escutávamos Counting Crows (um dos poucos CD's que tinhamos) depois dormíamos juntos, o resto da tarde. Ás vezes, andávamos até a Avenida Paulista, pegávamos um cinema e voltávamos. Ela era minha, eu era dela.

Não havia guarda-roupa. Com o tempo comprei uma penteadeira, onde colocava tudo, mesmo aquilo que precisava de cabide. Minhas revistas, numa dessas estantes de aço. Cabia tudo.

Um fenômeno estranho começou a acontecer. Cada vez mais roupas da Gabi apareciam em minha casa. No começo era um pijama, depois uma roupa extra pra sair se fosse o caso. E quando eu dei por mim, o figurino dela todo estava lá. Precisei tomar uma atitude enérgica. Compramos uma fruteira. E nela colocamos a roupa da Gabriela. Cabia tudo.

Alguns meses depois, o inevitável aconteceu. Gabriela se formou, foi para lá um dia. E nunca mais saiu. Nem da casa, nem da minha vida. O apartamento, tão sem jeito, tão tímido, ganhou flores, ganhou quadros. Um tapete que dizia bem-vindo. Copos para visitas. Cabia tudo.

Ali eu aprendi a ser sozinho. E logo depois, a ser dois. Ali eu aprendi a cuidar de alguém, e conheci o amor que não vem da família. Ali eu aprendi aos poucos, o que é ser casado, e por isso não me espanta tantos casais se separem depois de tão pouco tempo. É porque casaram de repente. Eu casei aos poucos.

Dali mudamos muito, e pra lugares sempre melhores. Mas quando me lembro do velho edifício Caribe, eu só lembro dela, e de mim, e dela e nós dois o dia inteiro, a noite inteira, o tempo todo.

A vida tem sido assim, até hoje. Já cantamos músicas mais tristes, mais amargas, e outras muito mais alegres. A banda cresceu, e hoje é menos etílica, mas com certeza, mais feliz ainda, com uma voz nova. Eu, ela e ele.

E continua cabendo tudo.

Monday, June 22, 2009

A Estrada, de Cormack McCarthy

Na sexta feira, dia 19 de junho, por volta da meia noite, eu estava terminando de ler "A Estrada" de Cormack McCarthy, ganhador do Pulitzer de 2007. Aos prantos. Sério.
Não é uma reação que livros normalmente causam em mim. Sou um mega-chorão de cinema, não me contenho e nem quero. Mas em literatura, tudo é mais cerebral, o autor precisa ser hábil demais para me fazer esquecer que estou lendo, mesmo que eu esteja adorando o livro. Mas McCarthy conseguiu.

Comprei o livro após ver o trailer do filme que estréia em outubro (http://www.apple.com/trailers/weinstein/theroad/). Fiquei instantâneamente hipnotizado pelo que sugeria a história. Sou um grande fã de filmes com temática apocalíptica. Gosto muito da ficção que me faz imaginar que tipo de rumo tomaríamos como povo em situações-limite.

Mas o livro é bem mais que isso. Bem mais do que eu esperava que fosse.

Sem querer estragar o prazer de ninguém que resolva comprar o livro, "A Estrada" conta a viagem de um pai e seu filho, do norte ao sul de uma América gravemente atingida por alguma catástrofe que não é explicada em momento algum, mas que também não vem ao caso. Eles precisam sair do frio intenso e buscar a costa, onde o pai espera que o clima seja mais ameno, e aumente suas chances de sobrevivência. Não sobrou nada. Não há comida, nem água, nem animais, e os poucos seres humanos que restaram não são do tipo que alguém gostaria de encontrar.

A estrada em si é um terceiro personagem do livro. Assustadora, cinza, fria, ameaçadora. A cada página ela desafia sua coragem de saber o que repousa na próxima de suas curvas.

Uma maneira de ler o livro é de forma concreta. Como um livro de suspense, e só assim já seria uma obra-prima. Várias passagens me deixaram com calafrios, vários dias fui dormir com pensando no que eu faria naquela situação.

Mas especialmente para quem é pai (ou mãe), e mais ainda para aqueles que (como eu) tem um filho único, o livro é uma experiência devastadora. McCormack esfrega o amor por seu filho em sua cara, ele te deixa com o coração pequeno. Algumas noites, tive que fechar o livro e ir ao quarto do meu filho, abraçá-lo no meio do seu sono. Ter certeza de que ele é real, que está ali, quentinho e a salvo do mundo, debaixo de minhas asas.

A estrada do livro se parece demais com as estradas pelas quais caminhamos todos os dias, enquanto levamos conosco nossos filhos e entes amados. Tentando protegê-los dos perigos, colocando nossos corpos na frente dos tiros. Evitando os contatos errados no percurso. A cada vez que o personagem do livro se vê obrigado a deixar o pequeno menino sozinho e morto de medo à beira da estrada para verificar se há algum perigo à frente, é impossível não se identificar. Quem tem filhos sabe exatamente que mesmo tentando cercá-los de carinho, e cuidado o tempo todo, é inevitável que o mundo se apresente assustadoramente mais cedo ou mais tarde. E o quanto dói vê-los perdendo, pouco a pouco, a inocência e pureza que os faz tão bonitos.

Carregamos nossos filhos cuidando e protegendo-os pelas estradas da vida, torcendo para que, quando chegue o inevitável e temível momento onde eles decidirão seus próprios passos, tenham a sorte, a sabedoria e a vontade de utilizar aquilo que ensinamos, e nos superar nesse trabalho.

"A Estrada" é um livro perturbador e maravilhoso, que me tirou o sono e me desafiou página a página. Foi direto para o topo da minha lista de melhores livros, e não deve sair de lá tão cedo.

Friday, June 19, 2009

Diploma: Comentando o comentário

Bom, geralmente não faço isso mas esse como o comentário do Vinicius está bem fundamentado, vou abrir exceção aqui, pois ficou muito grande pra área de comments Vou parte a parte, Vinicius, interrompendo-o enquanto comento. A arte da dialética é uma coisa interessante. Você acaba de usar a lógica, a razão, para convencer as pessoas.

Obrigado. Se eu não tentar usar a razão, seria com o quê?

Bem, sou artista plastico, atuando como designer gráfico (sim, posso fazer isso, pois o universo de um curso de artes plasticas é extremamente superior ao de um curso de design), e também formado pela FAAP.

Ótimo, vc é artista plástico. São áreas correlatas. Não vejo nada errado em um artista plástico ser um Designer, nem vice-e-versa. Dizer que o universo de artes plásticas é superior é só seu ponto de vista. Vc vê, eu desenho, e pinto desde que me entendo por gente, mas nunca me intitulei artista, porque tenho muito apreço pela arte, nunca me julguei à altura. Design e arte são coisas diferentes. Correlatas - mas diferentes. Arte (na minha opinião) se faz para satisfazer a SI MESMO, é uma maneira das mais nobres de se expressar. Em design, vc tem que satisfazer ao mercado. Expressar o cliente.

Qual a parte mais importante do corpo? Qual a que tem menos importância? Você vive sem um fígado? Sem um estômago?

Queria só saber o que o corpo humano tem a ver com vida corporativa. Comparação meio pobre, mas vá lá, vc vive sim, sem um dedo.


Sua justificativa é deprimente, talvez seu curso tenho sido em alguns dos botecos ali da Vila Boim, enquanto alguem fazia seus trabalhos.

Pois é Vinicius. Fui bastante nos botecos mesmo. E aprendi muito ali, com amigos que são hoje, grandes profissionais no mercado. Mas fiz minha facu direito. Vc devia saber, pois fomos colegas de classe, até os ultimos semestres, onde vc optou por LEA, não? Não lembra dos meus trabalhos? Eu sempre ficava com a nota só um pouco menor que a do Roberto com o Toshi (o Roberto sim, esse e um cara que eu sempre considerei Artista, bom técnica e conceitualmente). Ninguém NUNCA fez meus trabalhos, muito pelo contrário, eu que ajudei alguns no caminho.


Um dos fatores que fez nossos antepassados deixarem de grunhir e criar formas de sobreviver até hoje, foi organizar suas ideias, seu modo de vida... Lembra das pinturas ruprestes? Representear, denotar, conotar, narrar, ícone, símbolo, use o termo que quiser, aqueles "desenhinhos", tem uma função, e se tem função...

De novo, vc confunde ARTE com DESIGN. Design gráfico é uma necessidade de mercado, não de expressão. Nenhum homem das cavernas desenhou cartão de visitas. Ele se expressou, e isso é arte.

Uma bomba atômica não vai destruir o mundo, o Google não vai virar a Skynet.

Espero que não. Mas se acontecer, eu não vou correr atrás de um designer pra tratar meu filho.

O problema nosso, dos designers são vários. Como ser designers num país onde se chama de "cultura" um evento alcunhado de Carnaval? Pegue um pedaço de pedra na Itália e ela terá mais história para contar que qualquer manifestação acéfala nacional.

De novo Vinicius. O mundo e o ser humano, não vivem sem arte, nisso nós concordamos. E não precisa de diploma pra ser artista, precisa? E vc acha que deveria? Mesmo?


Outro problema, que advém também de uma ignorância de certa forma, são os clientes. Vamos imginar uma situação hipotética, que tanto gosta: Um pequeno empresário, bem sucedido e já ganhando com sua empresa um bom dinheiro, fabrica tênis de excelente qualidade. Um dia ele decide que precisa de um "logo" e te chama. Você estuda a empresa, o público dele, etc, etc, etc. Aí, com uma ideia brilhante, você sintetiza tudo, num elemento aerodinâmico curvo, sugere usar um slogan JUST DO IT e um nome NIKE. Pede o quê, R$ 2000??? O cara te olha e diz: "Estava pensando um valor bem mais em conta, só algo bonitinho pra ir nas caixas." A culpa é do designer?

Se o cara tem uma fabriquinha de sapatos que vira a NIke no futuro, o designer não tem que ser tornar sócio dele porque desenhou o logo. Mas se a Nike me contratar HOJE, eu não vou cobrar só 2 pau dela. Então, cobre corretamente do seu cliente, de acordo com o tamanho dele, a responsabilidade do trabalho, atenda-o soberbamente e, se ele crescer, melhor pra vc, porque vc terá na mão uma conta valiosíssima.


Posso me alongar aqui em milhôes de coisas, a falta de um sindicato ou organização que realmente funcione, desorganização e falta de ética por parte dos designers, submissão por parte dos designers em fazer merda em troca de bom salário.

Concordo. Mas regulamentar não tem a ver com diploma. Repetindo o que falei na lista, Empregadas domésticas são regulamentadas, e não tem diploma.

Não estou desmerecendo outras profissões, acho só que cada macaco no seu galho.

Concordo. Por isso peço para os designers pararem de se comparar com médicos, advogados e engenheiros e criarem suas próprias realidades. E respondendo ao seu último comentário. Reparei no tom agressivo, mas não me ofendeu. Se não quisesse opiniões, não teria aberto um blog. Não me tome por mal, sou extremamente zeloso com minha profissão, quero melhorá-la, mas me cansa quando há tantos anos leio a mesma coisa, sem que ninguém mude de atitude.

Um abraço

Thursday, June 18, 2009

Diploma é mesmo necessário?

Faço parte de uma lista de designers gráficos.

Com a notícia de que não será necessário diploma para exercer a função de jornalista, não demorou para o designers (minha profissão) se sentirem atingidos por tabela, e tecerem comparações. O que postei na lista segue abaixo:

Eu tinha certeza que essa discussão ia chegar aqui.

E minha opinião vai ser completamente diferente da maioria... fazer o que?

Eu acho que não precisa mesmo de diploma. Não precisa. Grandes jornalistas que estão por aí não tem diploma.

E quer saber mais. Também não precisa de diploma para ser designer. E antes que alguém pergunte, sim, sou formado em Design Gráfico pela FAAP, há mais de 12 anos.

Encarem os fatos, Andy Warhol não era designer, mas se ele quisesse fazer uma embalagem pro seu produto, vc recusaria? O que interessa, tanto em Jornalismo quanto em Design Gráfico, é o talento. E ponto.

Mas de modo algum acho que isso desmerece o peso da faculdade... se eu fosse contratar um designer hoje, o diploma teria sim, um peso enorme. Com certeza, o mercado dá valor a quem é formado. O cara que não é formado tem que se provar o triplo. Só que profissionalismo não se aprende em faculdade, não se enganem.

Me desculpem, mas o que falta em nossa área é profissionalismo, não diploma. É saber se portar, saber cobrar, saber dar e cumprir prazo, saber se expressar na frente de um cliente, saber se portar numa reunião. Isso diferencia o profissional MUITO MAIS que um canudo, ou mesmo regulamentação.

E uma coisa que designer tem que aprender, na minha opinião, é PARAR de se comparar a médico, advogado, engenheiro e dentista.
ACORDEM, se cair uma bomba amanhã e a humanidade tiver que se recompor, vamos viver sim, muito tempo sem designer, sem jornalista, sem decorador, mas DE MODO ALGUM, sem médico, dentista, engenheiro, cientista.

A faculdade dessas profissões é NECESSÁRIA porque ninguem aprende a fazer uma safena via tutorial na interner. Um médico passa 10 anos estudando e fazendo residência antes de montar um consultório. Designer faz freela no primeiro ano de facu. Se uma ponte cai, tem lá a assinatura do engenheiro que a projetou. Ninguém liga pro designer as 3 da manhã falando que tá com dor no logotipo. Liga pro dentista.

Essas profissões ganham mais porque tem que ganhar. Porque são essenciais.

Façam um exercício de humildade, saber disso não torna nossa profissão menos necessária no mundo de hoje.

Tuesday, June 09, 2009

Os Guias: Churrascaria

Conforme prometido no último post, passo a publicar o que escrevi para o finado paudabarraca.com.br. Esse foi escrito por volta de 2001. Então não venham me dizer que parece com o Cilada, porque nessa época o Bruno Mazzeo ainda estava no playground, certo?


Uma das coisas imprescindíveis na vida é aprender a se comportar numa mesa. Assim, você poderá esquecer tudo que aprendeu, para saber como se portar numa Churrascaria.
À princípio, parece até fácil. Basta sentar o rabo na cadeira e se empanturrar até não agüentar mais, e ir embora rolando para casa. Engana-se quem pensa assim. Comer em uma Churrascaria requer um nível até avançado de conhecimentos, para que não se coma gato por boi.
Felizmente, o paudabarraca está aqui para ajudá-lo a tirar todas aquelas dúvidas que você nunca teve cara-de-pau de perguntar a ninguém.

1 - Escolhendo uma Churrascaria
Preste bem atenção. Em matéria de Churrascaria, não se deixe guiar pelo nome. Um nome pomposo, com sotaque francês pode ser uma bosta, enquanto "Porcão" é uma maravilha. Existem outros modos de se ter uma pista da qualidade da Churrascaria antes de entrar. O principal deles é o mais óbvio: o preço.
Simples e básico: uma Churrascaria de R$ 35,00 por pessoa é excelente. Uma de R$ 8,90, geralmente, não. Por isso, se seu bolso anda igual ao meu, é melhor ficar na faixa de R$ 12,00 ou R$ 13,00.
Outra forma fácil de identificar quem entende da arte do churrasco é dar uma olhada nos garçons. Todos vão estar devidamente fantasiados de gaúcho. A diferença é que, nas piores, aquele japonês e aquele cearense não enganam ninguém.

2- Entrando na Churrascaria.
Seja duro. Seco. Tudo ali é uma arapuca, pronta para você gastar o máximo, e comer o mínimo.
Se for um final de semana, é muito provável que apareça do nada um garçom com uma infinidade de licorezinhos ditos "para abrir o apetite". Um desavisado poderá achar que aquilo está incluso no preço do rodízio: ledo engano. Tome duas daquelas malditas canequinhas (são sempre bregas:azuis, rosas, com o nome do estabelecimento gravado na frente) e você já terá dobrado o preço do seu churrasco.
Conheço pobres inocentes que chegaram a tomar três ou quatro, e ainda pediram para encher só até a metade, enquanto o garçom vestido de gaúcho ria de uma orelha a outra.
É chegada a hora de conhecer a mesa de frios. Bom, mesa é modo de expressão, porque o a coisa mais parece um chafariz de comida. Ali, tem de tudo. As mulheres adoram.
Pesquise bem o que pegar. Não se empolgue, senão em dois minutos você estará comendo lazanha, e esse não é o seu objetivo nesta noite.
Ao sentar, tenha certeza. Mesmo que você estenda um outdoor vermelho, para a carne não passar ainda, o maldito gaúcho da lingüiça vai querer empurrá-la (no bom sentido) em você. Recuse. Lingüiça, você come em qualquer churrasco do seu sogro.

3- Finalmente, as carnes
Diretiva número 1: não tente conversar.
Você está com a boca cheia, com fiapo de carne no dente, e os gaúchos não vão deixar. É um tal de "chuleta?", "picanha, senhor?", "maminha?". Esqueça. Concentre-se nas carnes. Aceite somente aquilo que você realmente gosta. Não tenha pressa, a churrascaria é grande, tem espaço para todo mundo. Se você for do tipo extrovertido, faça um alongamento de quinze em quinze minutos. Os gerentes não gostam, mas diabos, você tem seus direitos.
Quando voltar a passar só lingüiça, é porque você já está a muito tempo comendo. Está na hora de fazer pedidos.
Chame o gaúcho. Explique o que você quer. Fale da carne como quem fala da Luma de Oliveira. Seduza o cara. Ponha uma nota no bolso dele. Você vai ver. O sujeito vai sair lá do fundo, com aquela picanha sangrando, atravessar o salão inteiro ignorando o povo, e vai direto para sua mesa, oferecer o primeiro pedaço.
É imperativo saber a hora de parar. Preste atenção nos pequenos detalhes. Quando a mesa começar a se afastar sozinha, é um sinal. Veja se não é sua barriga que a está empurrando. Se for apenas um poltergeist, ou um terremoto, continue comendo.


4- Indo embora.
Considerando a orgia alimentar que você acabou de participar, é bom não facilitar as coisas. A tentação de cair no sono ali mesmo será quase irresistível.
Faça alguma coisa à respeito, discretamente. Na saída, finja tropeçar e caia no aquário,ou coisa parecida. Ninguém vai reparar, todos vão estar ocupados, entupindo-se de carne.

Monday, June 01, 2009

Guia Teixos: Academia

Há váááários anos, qdo eu era um dos escritores do saudoso (nem tanto) paudabarraca.com.br, eu montava Guias de Sobrevivências para os tempos modernos. Vou republicá-los aqui, e escrever alguns novos, porque o mundo está cada vez mais complicado, e você, leitor, pode precisar de nossa valorosa ajuda para deslizar calmamente por algumas águas da vida.

O guia de reestréia: Academia.

A maior preocupação do ser humano atualmente é a aparência. Bons tempos aqueles em que uma pessoa era apenas amante de grana, sexo ou poder. Nada disso adianta, se você não estiver bonito.

Os antigos já diziam, a resposta está em Jesus. Sigam seu exemplo.
Isso é verdade. Se Jesus não tivesse um abdomem de tanquinho, Madonna nada teria visto nele, e por consequencia ele não estaria com a vida ganha nessa hora. Então bora puxar ferro.

Chegar em uma academia pela primeira vez é uma experiência assustadora, pra dizer o mínimo. Pelo menos para pessoas ditas normais, como eu. Você olha em volta e aquele povo todo suado, cheio de energia, agitando garrafinhas de conteúdo não-identificado, e pensa: "onde é o bar dessa bagaça". Mas força, porque tá só começando.

Geralmente o instrutor te olha de cima a baixo, e já manda um veredito: "tá querendo perder, né?". Primeiro ponto a aprender: apesar de musculação ser classificado como esporte, o importante numa academia é perder. Competir, só na segunda fase. Isso que ele disse significa que você ficará relegado ao departamento de esteiras, bicicletas e qualquer coisa que normalmente andaria, mas que, em uma academia, fica preso no chão.

O primeiro desconforto numa esteira é ficar ao lado do cara que corre a 40km por hora, por duas horas seguidas, ouvindo um iPod e vendo TV ao mesmo tempo. E você, no começo vai conseguir, no máximo andar por 15 minutos antes de sentir que vai vomitar. E quando passar alguma matéria interessante na TV que não dá pra ouvir, e você fizer menção de escutar, vai pisar na borda da esteira (que veja só, não anda) e dar uma tropeçada absolutamente ridícula, provocando risinhos abafados até no povo que está na lambaeróbica.

A segunda coisa irritante é que você vai começar a suar. Bom, nada demais, dirão alguns. Deixe-me ser claro: você vai suar igual a um cavalo. Sua camisa vai ficar como se tivesse acabado de sair de um lago. Você vai gerar uma poça tão grande que vão perguntar se você é o homem-fluido. Cachoeiras de suor vão descer da sua testa diretamente para dentro do seus olhos.

E se for na bicicleta, além disso tudo, sua bunda vai ficar um trapo no dia seguinte.

Mas você é uma pessoa dedicada, e quer passar pra segunda fase do jogo. Então, dois meses de corre-corre sem sair do lugar depois, você é promovido, e passa à área dos puxa-ferro.

Você vai notar que essa área tem mais espelho que motel. O povo forçudão não consegue praticar nenhum movimento se não estiver prestando atenção em cada veia que sobe no processo. E para você, que ainda está em forma de kibe, o espelho é uma tortura, só presta para te deixar deprimido. O espelho também é usado para que os atletas admirem a forma física de outros atletas sem que pra isso tenham que passar pelo inconveniente de olhá-los nos olhos. Aliás, neste lugar, olho é o que menos importa.

É importante você parecer natural no ambiente, o que é dificil quando se está quase morrendo para levantar cinco quilos ao lado de uma mina que levanta duas toneladas com o glúteo esquerdo, mas tente. As séries geralmente são de 12 movimentos, e você provavelmente vai achar tudo muito fácil até o oitavo. Daí pra frente, seu corpo para de te pertencer, e você é subitamente possuído pelo espírito do Mr. Bean. Na verdade, parece que seu corpo foi substituído por um daqueles bonecos de vento que ficam na porta de concessionárias.

Conheça a fauna das academias. Ela é típica.

O que mais chama atenção, lógico, são os ultra-marombados. Aqueles caras que tem o braço maior que sua cintura. As tatuagens dos caras são em High Definition, wide screen. Eles geralmente são sérios, não estão ali brincando. São profissionais. Me pergunto se eles se dedicassem com este afinco em seus empregos, talvez teríamos um Bill Gates do tamanho do Schwarzenegger.

Tem as gostosas, que geralmente estão lá por motivos: manter aquilo que o cirurgião plástico montou, exibir aquilo que o cirurgião plástico montou e saber o que outros cirurgiões plásticos montaram em outras gostosas.

Tem os homens-balada, que estão lá só para marcar a saída de hoje a noite e para gritar "urrú!" durante a aula de spinning. Esses estão geralmente ultra bem vestidos e tem 4 horas por dia para gastar na academia. Você sempre os vê ao lado de alguém que está malhando.

Os Tiozinhos, que estão ali porque o médico mandou. As gostosas, às vezes, são suas esposas.

E tem você, que espera ficar tão forte quanto os marombados, tomando tanta cachaça quanto os homens-balada e ganhando tanta grana quanto os tiozinhos, só que em 40 minutos, no máximo. Nem preciso dizer que você vai acabar gordo, fraco e pobre.

É a vida.



Monday, May 25, 2009

Penso, logo existo? Existo, será que penso?

Li no twitter uma frase do Oscar Wilde, que coincidentemente é sobre algo que eu já estava ruminando há tempos:

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe".

Tenho cada vez menos paciência com pessoas inertes. Que passam pela vida sem deixar marca.
Gente sem ambicão.

Ambição, aliás, é uma palavra muito mal interpretada hoje em dia. Quando se pensa em um sujeito ambicioso, já fazemos a imagem de alguém inescrupuloso, que só pensa em grana, e faz qualquer coisa por ela. Sim, existe muita gente assim, mas não é desse que eu falo.

Existe ambição de conhecimento. De vida. Existem planos ambiciosos, mudanças ambiciosas. O que não significa dinheiro.

Tem gente que perdeu essa aula. Gente que se contenta. É o povo do: "Tá ruim, mas tá bom", do "Tanto faz", do "Eu é que não vou mudar isso", do "também, não tem jeito".

Eu não aguento quem não se choca. Quem não se desestabiliza, que acha que não erra. Gente que, pra não sujar as mãos, prefere não fazer nada, senta a bunda em algum lugar e passa a vida a assistir novela ou telebarraco vespertino (nada contra novela, é só exemplo, viu).

Tenho pouca paciência com quem tem muitas certezas. Pessoas que acham que o mundo está resolvido.

Gosto mais de quem está confuso. Que não está entendendo nada. Prefiro gente que busca. Busca qualquer coisa, mas sabe o que está buscando. Que valoriza mais a estrada do que a chegada. Sou mais da galera que bate a cabeça no processo.

Fico cabreiro com pessoas que não falam nada. Que não se comprometem, estão sempre analisando tudo, de um lugar confortável. Já prefiro quem fala demais, dá a cara a tapa, se expõe. Pelo menos deles, eu sei o que esperar.

Tenho problemas com gente burra. Não estou falando de educação formal, mas sim do brilho nos olhos de alguém que quer aprender, sempre. Gente esperta, não espertalhona. Gente que não vira as costas para conhecimento.

O problema é que o mundo está cada vez mais cheio deles. Esse povo que prefere não remar contra a maré. Ou que acha que pra ser diferente é só parece diferente, se vestir diferente, cortar o cabelo diferente, mas que no fundo, é tão ou mais careta que os próprios avós.

Entram e saem do mundo sem serem percebidos. Ou como disse Oscar Wilde, apenas existem.

Friday, May 22, 2009

Lost

Wednesday, May 20, 2009

Radio Days

Estou cada vez mais pobre de novidades musicais. As coisas diferentes que eu descubro são de no mínimo 20 anos atrás. Tô ouvindo jazz antigo. Rock antigo. MPB antigo.

Numa conversa com Léo (do nunca atualizado Xuruetismo), sobre o Last.fm, estávamos falando sobre a saudade que sentimos do rádio. Papo de tiozinho, mesmo.

Nas épocas pré-mp3, na época em que a principal função do rádio de um carro era enrolar a fita k7 que vc tinha perdido horas montando, na época em que as pessoas entravam nas baladas segurando um trambolho do tamanho de uma caixa de ovo pra não roubarem do carro, aquela época onde a gente comprava CD para ouvir em casa, nessa época, o rádio era fundamental. Era seu companheiro de trânsito (sim, já havia trânsito em Sampa nessa época).

Hoje eu ouço rádio de notícia, e só. Meus CDs com mp3 de poupam da tortura que é colocar na 89 pra ouvir rock, e acabar com um (atenção para gíria de velho) poperô na orelha.
O rádio era a fonte que a gente tinha para ouvir os sucessos, mas também para descobrir coisas diferentes. As emissoras tinham personalidade. Cada uma mais ou menos especializada num filão, bem claro. Os DJs (bom, pelo menos alguns) entendiam de música. A gente acreditava na palavra de certos caras. Tinha programas inteiros só com banda nova.

Sim, vão dizer que tá tudo aí ainda, se eu quiser me aprofundar, vou achar tudo na internet, com mais detalhes que antes. A nostalgia pode ser sem sentido mesmo, mas o fato é que eu perdi o hábito!

E foi essa sensação que eu resgatei escutando a last.fm (no pouco tempo que tive antes de descobrir que é pago!). Em 20 minutos eu tinha escutado 5 bandas que nunca tinha ouvido falar, todas boas. E todas com a minha cara.

Isso é uma boa nova na rede. O aparecimento dessas rádios combate a pirataria de maneira muito mais eficaz do que as recentes iniciativas reaças da primeira-dama da França. Devolve o sentimento que havia em torno das estações. Democratiza.

Mas bem que podia ser gratuito.

Tuesday, May 05, 2009

Eis!


Pra quem não conhece e ficou curioso. Pra quem conheceu e está com saudades.
Eis aí a Vila Rosa, formalmente conhecida como Jatiboca, fotografada pela Fernanda, filha da Kátia (minha prima, e uma das sortudas moradoras da última casa, naquela época). Quem mandou foi o Luiz Otávio, que era apenas o Tatá, não tinha quase 2 metros de altura, e morava mais ou menos no meio da vila.

A piscina, e outras modernizações na casa maior, que aparece ao fundo, são coisas novas. Nada disso havia em nossa infância, e nem fazia a menor falta.

Obrigado a todos que colaboraram!


Thursday, April 23, 2009

Trilha sonora da minha vida


Capitulo 3
1976 - Fazenda
1ª faixa do álbum Geraes - Milton Nascimento


Pode procurar no Google Earth. Existe no mundo um lugar chamado Jatiboca. Um só.
E lá foi o melhor lugar do mundo.

Nasci em Minas Gerais. Antes de completar dois anos de idade, meus pais mudaram-se para o Rio. Mas eu nunca deixei de ser mineiro. Boa parte da família (que não é pequena) ficou lá. Nas férias, meu pai nos colocava a todos dentro de uma Brasília creme, e nos levava para Ponte Nova, minha cidade natal.

Ponte Nova era apenas o porto de partida para onde realmente me interessava. Distante uns 45 minutos da cidade, havia um lugar chamado Vila Rosa, que era uma vila de funcionários de uma usina de cana-de-açúcar (que até hoje existe) chamada Jatiboca. Lá moravam dois tios meus. Tio Bertoldo, Tia Heloísa, e onze primos e primas. Oito de um, três de outro.

Para mim, aquele lugar sempre foi simplesmente, Jatiboca.

A princípio passávamos alguns dias em Jatiboca, eu e meus irmãos. Mas a medida que eu cresci um pouco, adquiri o direito de ficar as férias inteiras lá. Fui o único dos três que teve essa sorte.

Não sei exatamente como descrever o quanto aquelas férias eram boas. Talvez seja melhor você ouvir à música do Milton, que parece tê-la escrito, do começo ao fim, para mim. Se eu pudesse voltar no tempo, e se me dessem a chance de trocar aquelas férias no meio do nada, por viagens para os Alpes, para a Disneylândia, para qualquer resort do mundo, eu recusaria sem a menor cerimônia.

Aquilo era muito mais do que férias. Era minha celebração à liberdade. Lembro-me de hordas de garotos, vagando entre os canaviais, entrando em florestas, nadando em pequenos rios, comendo qualquer fruta que aparecesse em uma árvore, fazendo guerras de lama, soltando pipas, no meio de cachorros, bicicletas e tios. Depois voltar para casa, sujos até a testa, mortos e felizes de cansaço, prontos para ouvir o papo dos adultos.

Lembro das conversas na varanda, das histórias de assombração que me deixavam acordado a noite toda, enxergando um fantasma em cada canto da casa. Lembro da saudade que eu sentia dos meus pais, que aquela altura já tinham voltado pro estado do Rio. Minha mãe, toda preocupada, sempre perguntava: "Quer voltar, filho?". Era a hora que o choro parava: "Não, aí também não, eu aguento."

Se eu fechar os olhos agora, consigo sentir perfeitamente, o cheiro que o vinhoto de cana deixava no ar da vila toda. Um cheiro que todo mundo acha horrível, mas de tanta memória boa que me traz, não consigo não gostar.

Jatiboca não era só minha. Os pais de outros primos os levavam para lá da mesma maneira que os meus faziam. De modo que lá era uma verdadeira convenção de Teixeiras. Vínhamos de todas as partes do Brasil, de Porto Velho a Porto Alegre. O resultado era uma sensação de pertencer àquele lugar, um calor de ser recebido que duvido que muitas pessoas tenham experimentado em suas vidas.

Foi a melhor parte da minha infância. Agradeço todos os dias àqueles tios, tias, primos e primas por terem feito parte de alguma maneira. E a meus pais, que me largaram lá (com o coração apertado, tenho certeza), e voltaram para casa, ficando longe todos aqueles dias. Hoje eu olho pro meu filho, e não sei como vocês conseguiram.

Pode procurar no Google Earth. Jatiboca está lá. Só tem uma. As fotos que estão lá (e eu só as descobri hoje) são de um certo Marco Teixeira. É meu primo.

Só mesmo sendo um Teixeira pra colocar Jatiboca no mapa.
Valeu, Marco.

Thursday, April 16, 2009

Hall of Fame de idéias estúpidas

Apresento a todos...



O Sapato que abre garrafa.
Já pensou o sucesso que você vai fazer com as mina?
No barzinho, o garçom chega com a breja. E você já lança:
- Xá cumigo, chefia!!
E já vai arrancando o mocassim. As mina vai gamar.

Agora, falando sério. Um sapato que se auto limpa ao pisar na merda, ninguém inventa, né?


Tuesday, April 14, 2009

15 dias viajando. 15 dias de chinelo. 15 dias sem pensar.


Pois é.

Viajei por 15 dias para o Nordeste. Mais precisamente, de Maceió a Recife, de carro parando em qualquer lugar que nos desse na telha.
Vi e vivi mais do que um post aqui poderia comportar. Por isso estou pensando em fazer um outro blog, só pra explicar viagem. Queria ter feito isso com as anteriores, mas paciência.
Fomos eu, a Gabriela e o Francisco. Ficar esse tempo todo sozinhos é incrível. Só os três. Sem televisão, sem amigos, sem telefone. Toda família devia fazer isso, de vez em quando. A gente volta mais forte, mais junto, mais preparado.
O nordeste é um lugar diferente de qualquer outro que já fui. Te joga na cara ao mesmo tempo, e em quantidades iguais muita beleza e feiúra, o que o Brasil tem de mais rico e mais pobre.
Lógico que, estando de férias, o que eu mais queria era ficar boiando o dia inteiro naquele mar que parece piscina de hotel, de tão quente.
Foi espetacular. Espero poder contar em detalhes.
Aí eu volto (faz uma semana) e não consigo escrever nada. Espero quebrar o ciclo com esse post que vai do nada pra lugar nenhum, mas vira a página das férias, e vamo que vamo.

abraços a todos, estou de volta.

Friday, March 20, 2009

Aviso...


O blog estará meio... adormecido nas próximas duas semanas. Se der, dou sinal de vida.
Se alguém quiser me achar, comece procurando por aqui:

Lã Ráuse? Tem não sinhô...

Tuesday, March 10, 2009

Watchmen - O Filme

Para um fã da história em quadrinhos há pelo menos 22 anos, assistir Watchmen é uma experiência quase onanista. Nem tudo está lá (e eu nem esperava isso, a série é muito grande), mas tudo que está, ficou perfeito.

Os cenários, figurinos, paleta de cores, os atores perfeitos. Muitos reclamaram que o filme era muito longo, e eu ali, torcendo para ele não acabar.

Watchmen, juntamente com Cavaleiro das Trevas (a HQ, não o filme) praticamente definiram o tipo de nerd que sou hoje. Até então eu comprava minhas revistas, e tinha bastante Pato Donald misturado com Homem-Aranha. Dali em diante, eu tinha estabelecido um novo patamar. Posso dizer com certeza, que todos os outros quadrinhos que li, daquele momento em diante, foram comparados com Watchmen ou Cavaleiro. Acho que nem é muito justo com outros quadrinhos.

De maneira que, apesar de já ter visto ótimas adaptações de quadrinhos, como Sin City ou 300, e ótimos filmes baseados em personagens em quadrinhos, como Batman ou Homem de Ferro, nenhum outro filme me causou essa expectativa. Que aliás, foi plenamente cumprida.
O problema é que, dentro de um cinema lotado, não consegui evitar ficar imaginando o que aquele povo todo estava achando daquele filme. Pessoas que nunca leram um quadrinho na vida. Que nem fazem idéia do que é Dr. Manhattan. Não é como o Superman. Qualquer um conhece o Superman.

À medida que o filme avançava, essa questão ficou mais grave. Aquele povo sacou que o filme se passa em 1985? Notaram que Nixon ainda é presidente? Aquela molecada sabe quem foi Nixon? Aqueles sujeitos usando colant, não é estranho? Será que estão pensando: "porque tanta violência"? Eu pensava: "essa geração nem teve medo de bomba!"

Confesso que foi após a primeira hora que eu relaxei da minha tempestade mental e me deixei absorver completamente pelo filme. Com aproximadamente 1:40 de projeção, umas 5 pessoas levantaram e foram embora da sala. Depois, mais umas 3.
Lembrei da crítica da Isabela Boscov.

E então, caiu a ficha.

Aquele filme era para mim. Dane-se quem não quisesse ver. E aqui começa de verdade minha crítica. Cuidado, pode ter algum spoiler.

Parece que Zack Snyder, depois de ter provado para a indústria que conseguia encher as salas com 300 e Madrugada dos Mortos, resolveu bancar Watchmen sem fazer concessões. Alguns fãs mais chiitas podem reclamar que ele deixou partes de fora. Mas não que amenizou qualquer coisa que foi mostrada ali. Das partes pudendas do Dr. Manhattan aos cães mortos do Rorschach, ele não tenta tornar a vida do expectador mais fácil em nenhum momento.

Watchmen é uma adaptação dificil porque no quadrinho de Alan Moore ele não te conduz a gostar de nenhum personagem. Não tem protagonista, nem antagonista. Todos tem falhas, todos tem qualidades, não há respostas. Você adora um personagem, odeia outros, dali a pouco a coisa se inverte. O filme segue isso à perfeição.

Minha grande preocupação era com o final, que eu já sabia de antemão, tinha sido alterado. Mas a solução do roteiro é extremamente inteligente, e economiza muitos minutos ao não precisar se alongar com a história da lula.

Watchmen não é para qualquer um. Nem o quadrinho, nem o filme. Se você não foi ao cinema ainda, esteja avisado: há grande chance de não gostar. Essa é uma obra que não pede "me adore". Se você achar Watchmen "mais ou menos" alguma coisa você não entendeu. É pra amar, ou odiar.